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A família de Agostinho

É importante conhecer a índole da família para compreender alguns detalhes da vida de Agostinho. Para isso, nada melhor que ler seu livro Confissões. Porém, damos aqui um breve apanhado.

Pai Patrício

Funcionário público. Membro da corporação curial (decúrio). Pagão. Sem interesses religiosos. classe média-baixa. Possuía casa e uma pequena propriedade rural. Possuia também empregados ou escravos. De temperamento iracundo. Esforçou-se para dar aos filhos o devido estudo. Morreu quando Agostinho contava 17 anos de idade (cfr. Confissões III,4). Agostinho fala pouco dele. Foi batizado um pouco antes de morrer, conquista espiritual de Mônica, sua esposa.

Mãe Mônica

De família cristã. Bereber. Não pobre. Educação cuidada. Casa por contrato na sua juventude. "União estreita", como afirma Agostinho. Mulher paciente e prudente, conquistou a admiração do marido. Marcou profundamente a alma de seu filho Agostinho, que lhe dá o duplo título de "Mãe da carne" e "Mãe do espírito". Preparou a conversão do filho: com seus ensinamentos, gravando no coração dele o nome de Cristo e outras verdades cristãs; com seu exemplo de mulher casta, discreta, crente, caridosa; com sua oração, pois "oferecia orações e lágrimas..." (Conf. VI,1). Era também uma figura conciliadora, "um grande dom". Morreu em Óstia Tiberina (cfr. Confissões IX,8). Agostinho construiu um lindo monumento nas mais belas páginas panegíricas das Confissões à sua memória. É, no seu dizer, a serva servorum Dei (Conf. IX,9). Ela se distinguia, portanto, pela:

• Fé: "A disciplina do vosso Cristo e sua doutrina educaram-na no vosso temor, no seio de uma família fiel, digno membro da Igreja";

• Oração: "Piedosa”, “Sóbria e casta" (Conf. III, 11), solícita com a saúde física(Idem IX,8), também com saúde espiritual do filho (Idem III, 11-12) e do esposo (Idem IX,9). Atenciosa para com todos;

• Vida: "Com as boas obras dava testemunho de santidade", "vivia de tal modo que Vosso nome era louvado na sua fé e nos seus bons costumes" (idem IX,13). Alma eucarística. "Todos os que as conheciam vos louvavam, honrando-vos e amando-vos nela porque sentiam no coração a vossa presença, comprovada pelos frutos de uma existência tão santa" (Idem IX,9);

• Desprendimento: Elevação espiritual. Dom da contemplação (Idem IX,10).

Irmãos: Navígio e Perpétua

O irmão mais velho de Agostinho chamava-se Navígio e era o primogênito. Além deste, Agostinho teve uma irmã, cujo nome se ignora e da qual sabemos apenas que foi religiosa e governou um mosteiro feminino próximo de Hipona. Alguns autores chamam-na de Perpétua, embora não tenhamos nenhuma referência.

Posição social da família

Classe média-baixa, como já adiantamos ao falar de Patrício, pai de Agostinho. Como decúrio, Patrício devia enfrentar frequentemente o déficit dos impostos e arcar com outros gastos com serviços e diversão da cidade. O trabalho confere à família certa honra social, mas ela não era rica. De fato, não pode carregar o peso dos estudos superiores dos filhos, particularmente de Agostinho. Foi necessário contar com a ajuda de Romaniano, grande amigo da família.

Ambiente religioso

Filho de matrimônio misto: pai indiferente, mãe fervorosa. Na época, século IV, o paganismo, como sistema religioso organizado, tinha retrocedido. Após Constantino, sucedem-se decretos imperiais contrários ao paganismo. Permanecem fiéis a ele grupinhos aristocráticos saudosos. O cristianismo cresce. Na época, porém, o cristianismo sofre sérios ataques do Maniqueísmo e Donatismo.

Raça, língua e costumes

Agostinho era de raça berbere. Tagaste era centro de cultura berbere. Mas, embora africano de nascimento, Agostinho foi romano de cultura e de língua. Nunca aprendeu o púnico, a não ser algumas poucas expressões idiomáticas e frases curtas. Era de cor branca. Personalidade viva por temperamento e inteligência.

Estudos

Desde cedo foi colocado na escola para as primeiras disciplinas. Embora tivesse muita facilidade para aprender, logo no começo adquiriu aversão por certas matérias que lhe eram ministradas sem muita pedagogia. Era uma criança normal.

Inteligência, perspicácia

"Qualquer coisa que se referisse à arte de falar (Retórica), de raciocinar discorrendo (Dialética), tudo o que se referisse a dimensões (Geometria), a músicas (Música) e a números (Aritmética), sem grande dificuldade compreendeu, mesmo sem ninguém explicar, tu, Senhor, sabes... porque a facilidade de compreensão e a perspicácia da percepção é teu dom" (Confissões IV,16,30, tradução livre).

Artes liberais

Liberal é diferente de manual (serviços mecânicos reservados aos escravos e servos). As Artes liberais procuravam levar o indivíduo à perfeição "humanística". Só aos patrícios podiam permitir-se o luxo de dá-las aos filhos. Se a economia não era forte (economia familiar), só restava a possibilidade de ganhar um generoso mecenas, que favoreciam os estudos de jovens pobres com dotes intelectuais relevantes. Assim aconteceu com Agostinho, cujo mecenas foi Romaniano. Agostinho cursou o curriculum completo do ensino primário, médio e superior próprio da época:

• Primário - Dos 7 aos 12 anos, com mestre ou professor. As crianças aprendiam a ler, escrever e contar.

• Médio - Dos 12 aos 16 anos, com o chamado gramático. Pessoa encarregada de ministrar as seguintes matérias: Gramática, História, Mitologia, Arte métrica, Música e leitura de textos dos Poetas.

• Superior - Dos 16 aos 20 anos. Estudavam Retórica (comunicação e expressão), Dialética, Geometria, Música, Aritmética, Filosofia (sistemas, pensamentos, escolas...).

• Leituras - Agostinho foi mau estudante quando criança (Confissões 1,12,19). Mas pouco a pouco vai sendo dominado por um desejo ardente de leitura: "Entendi e compreendi quaisquer livros que pude ler" (Conf. IV,16). Trata-se de leituras literárias e científicas das Artes liberais. Conheceu, certamente, as obras de Virgílio, Cícero, Salústio, Horácio, Varrão, Aristóteles, Platão.

A leitura de Hortênsio de Cícero mudou radicalmente seu comportamento interior em relação à sabedoria. Nasceu aí a atitude filosófica frente à retórica. Nesse momento aderiu também ao maniqueísmo, porque estes se proclamavam seguidores de Cristo. Ao mesmo tempo Agostinho leu "muitas coisas dos filósofos" (Conf. V,3,4). O próprio Agostinho nos indica ter lido as seguintes obras filosóficas:

• De Aristóteles (tradução de Mário Vitorino): as dez categorias, Perihermenias, Tópicos;

• De Platão: Fedon (tradução de Apuleyo); Timeu (tradução de Cícero);

• Provavelmente de Porfírio: Isagoge ou introdução às Categorias de Aristóteles; Filosofia dos Cálculos (trad. de Mário Vitorino);

• Das Escolas gregas, com suas linhas mestras de pensamento, através das relações feitas por Cícero, Varrão, Cornélio Celso;

• De Cícero: De amicitia, De senectute, De academicis, Hertensius, De natura Deorum, Tusculanae, De finibus, De oficiis, De republica;

• De Varrão: Fonte histórico-filosófico-religiosa para Agostinho. Disciplinae;

• De Apuleyo: Astronomia.

Processo espiritual

Agostinho não apenas acreditou sempre em Deus, como também na sua providência, na vida futura, nos julgamentos divinos; e teve sempre no coração o nome de Jesus, que havia bebido, como ele mesmo afirmava, com o leite materno (Conf. 3,4,8). Durante toda sua vida foi se desenvolvendo, de uma forma lenta e gradativa, um processo humano de maturação afeivo-psiquico-intelectual que lhe deu base também para a maturação cristã. Sua conversão foi um processo contínuo da graça de Deus, mas também foi muito decisiva sua formação humana, determinando sua capacidade de decisão, força de vontade, que ele reconhece como "dons" de Deus.

Infância

Da infância de Agostinho sabemos muitas coisas desde as suas Confissões. Durante sua infância foi acometido de uma febre, por causa de uma forte dor no estômago, e esteve perto de morrer; chegou mesmo a quase receber o batismo, o chamado batismo clínico. Foi dotado pela natureza de um ânimo bom, afetuoso, decisivo e forte. Amante da ordem, da calma, da amizade e, sobretudo, da verdade. Comovia-se facilmente. Não gostava de desordens (Cfr. Confissões 1,20,31). Afinal, um menino normal, dentro dos conceitos de sua própria idade.

Adolescência

Também através das Confissões, temos muitas informações de sua adolescência. Esta sua fase etária foi muito marcante. A distância da influência da mãe, os exemplos dos companheiros, os coleguismos, fizeram com que ele tivesse, muitas vezes, "vergonha de não ser sem vergonha". Mas, por outro lado, sua própria mãe o elogiava, pois, era considerado por ela como "piedoso" (Conf. 9,12,30). Foi, além disso, externamente expansivo, e rico de fantasia. Gostava dos jogos e brincadeiras e barulhos nas praças, assistir os espetáculos, imitar os atores, caçar pássaros nos bosques vizinhos. Um ano que passou na ociosidade, sem poder estudar, encheu-lhe a vida de grandes problemas e vícios que mais tarde muito o fez lamentar. Cultivou sempre uma profunda dedicação à amizade, a tal ponto de ser esta ma das características marcantes de sua vida.

Leitura de Hortênsius, de Cícero

Aos 19 anos, Agostinho descobriu o ideal da verdade, ao ler esta obra. Trata-se de um valor absoluto, transcendente às formas belas e úteis da Literatura. Onde está a verdade? Cícero não o diz em seu livro, mas aconselha a buscá-la, não nas escolas ou autores, mas diretamente, por ela mesma. Agostinho sente-se encantado por esta idéia ou proposta: ele mesmo é que deve iniciar agora uma caminhada espiritual, intelectual, longa e cheia de surpresas em direção à verdade.

Busca da Verdade

Começou, então, a ler com avidez não apenas as obras de literatura e poesia, mas também alguns filósofos. "Mas não havia ali o nome de Cristo".

Nas Escrituras

Não encontrando o nome de Cristo nos escritos filosóficos, partiu para as Escrituras, onde se deteve para beber ansioso a sabedoria. Foi um fracasso! Encontrou-a muito infantil. Não compreendeu sua linguagem. Ele adorava a beleza do bem-dizer clássico. As Escrituras, no entanto, oferecem um linguajar humilde demais. Sua conclusão: não pode a sabedoria estar em formas tão desprezíveis; não combina com seu sistema e modo de pensar (Conf. 3,5,9). Ele ainda não sabia que a Sabedoria de Deus só alcança os corações humildes.

No maniqueísmo

Os maniqueus, além de falarem de uma pretensa sabedoria, usavam o nome de Cristo. Por isso eles pareciam satisfazer as necessidades de quem busca a sabedoria, ao mesmo tempo em que o nome de Cristo. Agostinho se deixou envolver pelo maniqueísmo, e fala de "sedução" da falsa sabedoria. Falto e carente de sólida interioridade ("encontro-me fora de e mim mesmo"), caiu na rede pseudo-científica de um sistema filosófico-religioso vazio de conteúdo, mas exuberante de retórica e imaginação. Agostinho fala de ficções brilhantes, falsidades, ficções vãs, comida, conjecturas, quimeras. O maniqueísmo prometia das explicações racionais sobre o problema mundo-homem-Deus. Argumentos científicos. Não submissão à fé. Ele freqüentará este ambiente por nove anos. Primeiramente, entusiasmado; depois, desiludido. "Diziam: Verdade, Verdade! E muito falavam dela para mim... e ela não estava neles, mas falavam coisas falsas, não somente de Ti... mas também destas coisas e elementos do mundo..." :

• Adesão - Mas, por que Agostinho aderiu? "No fundo desta adesão houve, antes de tudo, uma indigência profunda, uma veemência vital, uma surda inquietude, que a todo o custo suspirava para a hamonia de uma solução" (Capánaga, Introdución General a las Obras de San Agustín I, Madrid, 1946,10).

Bebeu a primeira água que lhe foi oferecida: "Não por escolha, mas por falta de outra" (De utilit. credendi 1,2). Para esta decisão, que foi que mais lhe impressionou?
- A solução do problema do mal? - O ascetismo dos "eleitos"? - A promessa de uma ciência racional? - As críticas à fé cristã?

• Aceitação - De início entregou-se confiante ao sistema maniqueu. Chegou a empolgar-se com ele até ao proselitismo.

O sistema maniqueu

O maniqueísmo se caracteriza por um materialismo dualista, pelos panpsiquismo, pelo fatalismo e por uma ética catártica. Aqui nos propomos comentar algumas dessas características.
Panpsiquismo - tudo é mistura: luz-trevas. As diferenças são quantitativas. Segundo isso, todo ser finito tem um elemento de luz a ser liberado. São partículas de luz, princípios de vida (psiqué), de bondade. Tais princípios podem ser liberados pela ação dos "eleitos".
Antropologia - o homem também é mistura de luz-trevas. Mas é, ou pode ser, instrumento para encaminhar a liberação de luz nos seres inferiores (animais e vegetais). Existem dois tipos de homens:

• Os eleitos - os que penetraram na "gnose" libertadora. São os "iluminados", "dominados pela luz". A morte deles significa a plena libertação.

• Os ouvintes - os que apenas aceitam a doutrina de Manes. São imperfeitos. Não fizeram a opção total pelo Bem. Não se submeteram à ascese (celibato-abstinência). Se não se decidirem antes da morte terão que se reencarnar.

Fatalismo - liberdade não é possível num sentido interior pessoal. No máximo pode-se falar de uma liberdade externa (ausência de coerção). Não há eleição auto-determinante para o Bem. Somente há liberdade externa, isto é, ausência de coação externa.

Responsabilidade - Não é possível também assumir a responsabilidade pessoal dos próprios atos. Isso levava a não ter que se angustiar com problemas de consciência nem arrependimentos humilhantes. Fácil solução ao problema do mau moral pessoal.

Ética maniquéia - é basicamente fundamentada num rito de purificação (catarsis). É uma ética de fuga, uma luta "negativa" contra o mal. Não é o bem que entusiasma e compromete, mas o mal que ameaça e aprisiona. A perfeição será alcançada por quem maior desprendimento do mal ou maior domínio das fontes do mal conseguir. Aqui convém lembrar a doutrina dos três selos, ideal no domínio ascético do maniqueu, que marcavam o tríplice caminho progressivo na conquista da perfeição: ventre/abstinência; mão/celibato; boca/ciência. Quem possuía as três era "perfeito". Quem parava no primeiro, não passava de "ouvinte". Nasce, em definitivo, uma "ética subjetivista" em que a conduta pessoal passa a ser norma para todos.

É o critério do momento, o costume, a própria justiça que se projeta como norma universal, e não uma lei reta e eterna estabelecida por Deus (Cfr. Confissões 3,7). É nessa linha que Agostinho rebate as acusações de impiedade lançadas ironicamente pelos Maniqueus contra os Patriarcas (Confissões 3,7,13-14).

Materialismo - Agostinho caiu no materialismo. "Não podia imaginar outra substância além da que nossos olhos constantemente vêem" (Confissões 7,1).

"Não podia imaginar o espírito senão como um corpo sutil que se espalha pelos espaços" (Confissões 5,10,20).

Agostinho foi se desanimando da doutrina maniquéia. A decepção chega ao máximo na entrevista com Fausto, representante maior da doutrina maniquéia (Confissões 5,7,13). Ficou desprovido, sem possibilidade de novos caminhos dentro da seita. Fausto era o mais douto; no entanto, não soube dar respostas às suas dúvidas. Mas, embora desencantado com Fausto, ele o admirou pela sinceridade em admitir a própria ignorância (Confissões 5,7,12). Ainda que desencantado, Agostinho, em Roma, continuou, por razões de amizade e conveniência freqüentando ambientes maniqueus. Contudo, o fez já sem expectativa de caminhar naquela falsa doutrina. Então, tíbio e negligente, manteve certo núcleo doutrinal, na esperança de poder um dia trocar por algo melhor.

Ceticismo dos Acadêmicos

Neste período, a Academia de Platão havia assumido uma postura cética. O ceticismo imperava nesta escola. Certamente este ceticismo não era o pirronismo, ou ceticismo universal, mas o probabilismo, mais mitigado, portanto. Chega para Agostinho a tentação deste movimento (Confissões 5,10). "Ocorreu-me ao pensamento ter havido uns filósofos chamados acadêmicos, mais prudentes do que os outros porque julgavam que de tudo se havia de duvidar, e sustentavam que nada de verdadeiro podia ser compreendido pelo homem" (Confissões 5,10,19). São os primeiros sinais da desesperança. Não confia no maniqueísmo cheio de fábulas, ao qual decide abandonar, ainda que tomado pela tristeza, "duvidando de tudo" (Confissões 6,16,26), pois, mesmo o ascetismo dos eleitos era falso. Não sabe para onde se dirigir. Não pensa achar solução na Igreja Católica. Mas, será que a dúvida afetou nela todas as áreas do saber? Não, às verdades matemáticas (Confissões 6,4,6). Não, às verdades ontológicas de Deus: existência, providência, etc. (Confissões 6,5,7). Não, ao temor da morte e juízo (Confissões 6,16,26). Parece que a dúvida só afetou a verdade de caráter religioso: possibilidade de alcançar Deus = Verdade = Bem (Confissões 5,14,24); verdade de ordem moral: justiça interior, castidade, responsabilidade. Trata-se mais de um ceticismo prático, mas que deixou forte impressão na sua vida. Tal experiência pessoal, dolorosa, sem dúvida, levará Agostinho a traçar vivamente a resposta ao problema da certeza, a natureza da verdade e os critérios do verdadeiro conhecimento humano.

Catecumenato

Em Milão, no ano 384, Agostinho estabeleceu contato com santo Ambrósio: estava à procura de oratória, não da verdade. Mas, "a verdade se me aproximava insensivelmente"(Confissões 5,13,23). Agradou-lhe e lhe foi uma descoberta perceber o sentido alegório-espiritual com que Ambrósio interpretava as Escrituras; além do estilo atraente, com que aclarava muitas passagens impugnadas pelos maniqueus. Nasce aí o desejo polêmico contra os maniqueus. Apoiado nas doutrinas cosmológicas dos filósofos "conhecedores das coisas do mundo" (Confissões 5,3) que lhe convencem mais que as fábulas de Manes ("copiosissime delirans"), e duvidando, com maior razão, de seu testemunho religioso, Agostinho decide abandonar o maniqueísmo. Nessa situação de indecisão e sem maiores opções, determina ingressar como catecúmeno na Igreja que lhe foi recomendada por seus pais "até vir alguma certeza a elucidar-me no caminho a seguir" (Confissões 5,14). Esta nova situação levará Agostinho a entrar em contato com os temas centrais da doutrina católica.

Neoplatonismo

Por este tempo, caem nas mãos de Agostinho alguns livros "platônicos", traduzidos do grego ao latim. "Lidos, porém, de Plotino pouquíssimos livros" (De beata vita, 4). São livros de Plotino traduzidos ao latim por Mário Vitorino (Cfr. Confissões 8,2). Tais leituras causam em Agostinho um grande efeito. Foi como "balsamo sobre chama" que provoca um incrível incêndio (Contra acadêmicos, II,5). Agostinho estabelece correspondências entre a doutrina de São João sobre o Verbo e as hipóstases divinas da Enéada de Plotino (Uno-Nous-Alma -> Enéada V), rejeitando, porém, o seu politeísmo emanatista (Confissões 7,10). Um novo mundo de realidades impensadas descortina-se ante o "olhar interior" de Agostinho. “Recolhi-me ao coração, conduzido por Vós" (Confissões 7,10). Neste momento começa a descobrir algumas verdades sobre Deus, a Criação, o Mal, o Verdadeiro, o Bem-Felicidade, o conceito de pecado, o retorno e a ascensão espiritual. Enfim, os livros neoplatônicos mostraram para onde devia orientar seus passos. As Escrituras iriam mostrar-lhe o Caminho por onde alcançar a Bem-aventurança desejada.

Ao Cristianismo

O Neoplatonismo descobriu para Agostinho a existência e o valor da Verdade eterna que pode ser e contemplada e fruída. Não podia oferecer-lhe, porém, a caminhada eficaz que o levasse à região da Verdade. A inteligência ficava olhando de longe. Em se tratando da Verdade absoluta, divina, não adianta querer aparentar sabedoria, nem inchar-se com a ciência (Confissões 7,20,26), porque o conhecimento intimo de Deus não pode ser fruto de penetração intelectual, mas da livre comunicação (Revelação) de Deus. E isso o Neoplatonismo não podia fazer. É Deus quem concede a sua graça aos humildes e lhe apraz revelar seu mistério aos pequeninos (Mt 11,25). Diante de Deus não tem valor a presunção e sim a confissão. A meditação humilde da Palavra de Deus levará Agostinho à conversão; com a graça, com a humildade, encontra e vive Deus.

Outros dados sobre Agostinho

Existem outras informações da vida de Agostinho que devem ser estudadas, pois são úteis ao seu melhor conhecimento. Dentre essas, anotamos as seguintes:

Constituição física

Desconhecemos sua fisionomia, mas sabemos bastantes detalhes sobre sua constituição física, devido a seus próprios escritos. Não foi uma pessoa de compleição forte. Ao contrário, era frágil e sujeito a constantes problemas de saúde.

Na meninice, "sobreveio-me certo dia uma febre alta, causada por uma opressão no estômago" (Confissões 1,10,17), e esteve quase à morte. Chegou a pedir o batismo. Aso 29 anos foi colhido por ma enfermidade grave, mas não ainda especificada, que também quase o levou ao túmulo (Confissões 5,9,16). Aos 33 anos foi atingido por uma lesão pulmonar que, causando-lhe fortes dores no peito, tornou difícil a respiração e por muito tempo o impediu de falar claramente (Confissões 9,2,4). Em Cassicíaco teve uma aguda dor de dente que o impediu de expressar-se oralmente (Confissões 9,4,12). Aos 56 anos de idade, em Hipona, uma doença o obrigou a um repouso de convalescência fora da cidade, durante a qual teve uma recaída com crises de febre (Ep. 118,34). Aos 73 anos, em Hipona, quando foi procurado pelo conde Bonifácio, encontrava-se tão debilitado que mal conseguia falar (Ep. 220,2).

Fora estes casos de enfermidade, Agostinho sempre teve uma saúde muito debilitada. Logo de volta à África, escreveu a seu amigo Nebrídio que a enfermidade do corpo não lhe havia permitido fazer tudo quanto gostaria (Ep. 10,1). Muitos anos depois, já no final da vida, dirá ao povo que setá velho pela idade, mas de há muito o está por causa das enfermidades corporais (Serm 355,7). De fato, a frágil saúde o impediu muitas vezes de empreender viagens marítimas e mesmo ultramarinas, às quais, por necessidade de ministério, sobrecarregava aos irmãos no eiscopado (Ep 122,1). Sua constituição não o permitia suportar o frio (Ep 124,1; 269). Foi atormentado de dores e de inchaços que muitas vezes o obrigavam à cama (Ep 38). Tinha uma voz tão fraca que não se escutava senão com um gande silêncio (Serm maio, 126; In Ps 50,1). Mais de uma vez, falando, confessou consaço e afonia (Serm 42,1; 94; 320; 348,4; 350,2; In Joan tract 19,20).

A mulher de Agostinho

Agostinho, dos 17 aos 18 anos de idade, começou a viver com uma mulher, certamente jovem como ele. Viveu com ela cerca de 14 anos, numa fidelidade impressionante. Ela era uma cartaginesa, que Agostinho havia trazido da África e com a qual teve um filho de nome Adeodato. Por que, depois de convertido, na hora de pensar no matrimônio, não se cogitou em legitimar a união com ela? De acordo com a nossa concepção moderna, parece que esta seria a solução mais lógica; na verdade, a única justa. Mas isto não aconteceu e, certamente, não por falta de amor. Agostinho amava aquela mulher mais do que podemos imaginar. A separação lhe fez sangrar o coração: "Sendo arrancada do meu lado, como impedimento ao matrimônio, aquela com quem partilhava o leito, o meu coração, onde ela estava presa rasgou-se e vertia sangue. Retirara-se ela para a África, fazendo-vos voto de jamais ligar-se a outro homem e deixando-me o filho natural que dela tivera.

E eu, miserável, não imitei esta mulher! Não sarara ainda a chaga, aberta pelo corte da primeira mulher. Mas, após a inflamação e após a dor pungentíssima, a ferida gangrenava, doendo-me dum modo mais frio, mas mais desesperado" (Confissões 6,15). Por que Agostinho, na hora de casar-se, havia decidido casar-se com outra? Três hipótoses foram levantadas: a) por razões espirituais; b) por razões econômicas; e c) por razões sociais. Segund T. Trapé, as duas primeiras hipóteses parecem insuficientes; a verdadeira razão devia ser a de ordem social. Se a mãe de Adeodato era, como parece evidente, de baixa condição social, a lei civil proibia em tal caso o matrimônio de pleno direito. De qualquer modo, não se pode falar nem de insensibilidade nem de culpa da parte de Agostinho. A primeira é desmentida pelas Confissões e a segunda não foi confessada. Se fosse culpado, Agostinho, tão sensível como era, teria falado longamente nas mesmas Confissões. Parece ter sido pessoa de altas qualidades intelectuais.

O filho Adeodato

Adeodato nasceu no ano 372, quando Agostinho tinha mais ou menos 18 anos. Agostinho o chama humildemente de "o filho do pecado" (Confissões 9,4). Esteve sempre em companhia dos pais. Quando sua mãe precisou separar-se de Agostinho para voltar a África, Adeodato ficou com Agostinho em Milão, onde foi batizado juntamente com o pai e Alípio na noite de 24 de abril de 387. Viajou para a África e tomou parte do primeiro mosteiro de Tagaste. Adeodato é o interlocutor do diálogo De magistro. Tinha, então, a idade de 16 anos. O próprio Agostinho afirma que todos os pensamentos colocados nos lábios de Adeodato são dele mesmo; e manifesta seu assombro por constatar que em tão tenra idade seu filho manifestasse tal admirável inteligência. Adeodato morreu na adolescência em 388 aos 16 ou 17 anos de idade. Alguns acreditam que sua morte tenha ocorrido no ano 389.

Personalidade de Agostinho

Alguns traços carcterísticos da personalidade de Agostinho:
 
• religioso. O sentido do religioso lhe foi ministrado "com o leite materno" (Confissões 3,4,8). O nome de Jesus o marcou profundamente. Mesmo quando aderiu ao maniqueísmo, o fez pensando que aí pudesse satisfazer sua sede: "Qualquer obra que faltasse aquele nome (Jesus), mesmo que fosse sábia, ilustre e verdadeira, não me conquistava inteiramente"(Confissões 3,4,8).

• apaixonado, no sentido da caracterologia. De fato, tudo dá a entender que era ativo, emotivo. Pelo menos a maioria de suas obras assim o revela. Por isso mesmo tinha grandes sentimentos.

• amante da amizade. Tinha um verdadeiro culto à amizade. Dedica páginas inteiras a esse assunto. Conheceu a amizade "inimiga", que faz o homem ter vergonha de não ser sem vergonha (Confissões 2,9,17); a amizade "humana" (Confissões 4,4,7; 4,4,9-7,12); e a "amizade cristã"(Ep. 258), em outras passagens onde elogia o afeto dos bons e verdadeiros amigos (De Civ. Dei 19,8), ou Alípio "amigo do peito", Nebrídio "amigo dulcíssimo", Severo "meu caríssimo concidadão", Profuturo "um outro eu mesmo".

• saúde debilitada. A falta de saúde influia apenas em alguns trabalhos. Agostinho, de fato, não tinha uma constituição robusta e resistente. Escreve a Nebrígio informando que a enfermidade do corpo não lhe permite fazer tudo quanto gostaria (Ep 10,1).

• expansivo e rico de fantasia. Tinha uma imaginação fértil, explorando-a nos seus escritos e sermões.

• ordeiro. Amante da ordem. Tinha uma profunda aversão à bagunça dos "baderneiros" (Conf. 3,3,6,; 5,8,14).

• amante da beleza. Foi pela beleza que se aproximou da verdade: converteu-se primeiramente pelas formas belas à filosofia; posteriormente, para os vários aspectos do ser humano e do mundo antropocêntrico e teocêntrico. Ele mesmo afirmara que a filocalia (amor à beleza) era o passo necessário para a filosofia (amor à sabedoria).

• amante da verdade. Sempre a procurou. Sua atitude de busca o fez trilhar vários caminhos antes da conversão.
• desejoso da Felicidade. "Todo homem quer verdadeiramente ser feliz".

• inteligência e coração. Uma das expressões mais utilizadas nos brasões agostinianos é sciencia et charitas. Não se pode entender Agostinho separando mente e coração. Ilumina a sensibilidade com a inteligência e dá sensibilidade à razão.

• afetiva e emocionalmente equilibrado. Em todos os seus escritos transpira uma aversão ao pecado, mas um grande respeito e amor à pessoa. Agostinho é otimista metafísico e teológico.

Professor de Retórica


A Retórica, em sentido estrito, é um corpo de doutrina que se propõe ditar normas que capacitam à pessoa falar em público e a levar os outros, por meio da palavra, à persuasão. Num sentido mais amplo, no entanto, Retórica ultrapassa o campo da eloqüência, invadindo o da poética, até se tornar também a arte de escrever belamente. Agostinho, como professor de Retórica, necessariamente tinha que se desenvolver na arte do falar e do escrever. À medida que ele ia ministrando esta arte aos seus alunos, foi adquirindo, pelo seu gênio, uma versatilidade em relação à mesma. Ao lado de grandes leituras que lhe deram o conteúdo, adquiriu, assim, o manejo da arte da persuasão através da palavra falada e escrita, que lhe deu a forma. Isso explica, em parte, a proficuidade dos escritos do Santo.

 


 

 

 

 
 
 
 
 
       
 
       
     
 
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